GUIU EM PEDAÇOS

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Algumas boas palavras permanecem....sempre em nossos corações!
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2 de ago. de 2011

ESTAMIRA, PRESENTE!

"Ontem a tarde (27 de julho de 2011) Estamira Gomes de Souza, mulher negra da classe trabalhadora, catadora de lixo no Aterro do Gramacho (Rio de Janeiro) nasceu ao contrário. Tinha 72 anos e morreu cansada, mal cuidada e principalmente: não ouvida (paradoxalmente tão escutada no mundo inteiro). A protagonista do filme que leva seu nome, dirigido por Marcos Prado e lançado em 2004 agonizou por horas no Hospital Miguel Couto, na Gávea, desassistida pelo SUS e incapaz – como a imensa maioria dos trabalhadores – de comprar sua assistência em um hospital particular.
Os trocadilos apontam que a razão de sua morte se chama 'septicemia', uma infecção generalizada. Poderiam dizer que por ter transtornos mentais, Estamira deveria ter sido assistida em um asilo, ou um hospital/hospício psiquiátrico para que de lá não saísse e morresse em paz, longe do lixo, das moscas, longe da família, longe daquele mar que lhe era tão importante. Do outro lado, os que acreditam cegamente nos governos, acreditam que a construção da rede de atenção psicossocial substitutiva à lógica manicomial está consolidada, amplificada e atuante. Não desconsideramos os avanços da instalação da rede, determinada pela lei 10216/2001. Mas, como Estamira nos alertou: existe esperteza ao contrário, não inocência.
De toda forma, Estamira passou sua vida em pé, trabalhando, replicando sua existência dentro dum lixão, desatenta aos levantes manicomiais de empresários-da-saúde-mental que discorrem trocadilos sobre técnicas arcaicas repaginadas, assistência integral, novos medicamentos, cuspindo cifras.. Alheia aos professores de Psicologia que passam o filme nas aulas e todos saem das salas com mal estar, surpresos, com pena. No ano que vem, uma nova turma assistirá sua história. Tudo bem: esta arte nos permite a distância, a contemplação, o não envolver-se e o não implicar-se.
Escutamos Estamira e observamos mais uma que sofre numa massa de trabalhadores negros, homens e mulheres que apodrecem todos os dias. Estamira é apenas mais uma entre os milhares de loucos da classe trabalhadora que já não valem mais nada ao sistema do capital e que por isto – e só por isto – são jogados no lixo para se confundirem ao inútil e ao descuido nos aterros e favelas do país.
O cinismo deste sistema traveste seu discurso delirante, denunciativo, agressivo e violento em “poesia”, “uma forma atípica de expressão”, “obra de arte”. Esta forma de arte não nos importa. Não queremos lembrar de Estamira apenas quando seu filme recebe mais um prêmio internacional. Acreditamos que não basta lamentar sua morte em cento e quarenta caracteres, num pio. Reivindicamos a vida e obra produzida ao longo dos dias de vida de Estamira. Com todos os seus direitos humanos negados, todos os serviços de saúde de má qualidade, sua péssima condição de moradia, seu trabalho precarizado, a educação negada. Seus e de todos os trabalhadores.
Não nos interessa a mera constatação de que algo vai errado. Interessa a luta pela efetividade da atenção à saúde mental no Brasil. Interessa a consolidação de equipes multidisplinares, a efetivação da Reforma Psiquiátrica, a redução de danos, a porta aberta nos equipamentos, a defesa intransigente de uma vida digna e sem desigualdade social para todos os trabalhadores. Lutando, honramos Estamira e todos os seus irmãos e companheiros desconhecidos, que nunca estrelarão um filme mas que também querem visitar o mar.
 
Estamira! Mulher negra, resistente, trabalhadora!
Presente!"
  César Fernandes, psicólogo militante da luta contra os manicômios.
 
Não me canso de  lutar, com toda sanidade que ainda possuo e força que  tenho...pelos ideais da Luta antimanicomial...!

21 de jun. de 2010

Estão malucos?:

;Secretária de Saúde do estado de São Paulo emite “Carteira de Esquizofrênico”
http://blogdofavre.ig.com.br/2010/06/estao-malucos-secretaria-de-saude-estadual-emite-carteirade-esquizofrenico/


A utilização de uma carteira, emitida pela Secretaria de Saúde do Estado, por pacientes dos serviços de atendimento à saúde mental, com a palavra “esquizofrenia” estampada em letras graúdas, levou o deputado estadual Fausto Figueira (PT) a pedir providências ao promotor de Direitos Humanos na área de Saúde Pública, Arthur Pinto Filho, contra o que considera uma discriminação de inspiração nazista.
Segundo o deputado, o secretário da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, “é o gestor da saúde pública no Estado de São Paulo, e tem o dever de impedir que pacientes sejam discriminados, notadamente o doente mental.”
A denúncia partiu de um paciente, autor da carta “A Esquizofrenia e a Estrela de David”, encaminhada à Comissão de Saúde da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, presidida por Figueira. Na mensagem, o paciente diz que no dia 20 de abril, ao retirar o medicamento do qual faz uso na Farmácia de Medicamentos Especializados, em Santos, gerenciada pela Cruzada Bandeirante São Camilo, sob os auspícios da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, recebeu uma carteira amarela com a palavra “esquizofrenia” estampada em letras graúdas.
O paciente, sentindo-se discriminado, equiparou a carteira recebida ao período nazista e argumentou que a carteira afronta a Lei 10.216 (chamada Lei Paulo Delgado), pois quebra do sigilo do diagnóstico estabelecido em prontuário.
“Sabe-se – diz o deputado na justificativa da sua representação – que o estigma traz problemas (..) como a exclusão do individuo com doença mental nas suas relações sociais. (…) As doenças mentais devem ser encaradas do mesmo modo que as doenças físicas. Tal como o câncer e as doenças de coração, sabe-se que muitas doenças mentais têm causas definidas, requerendo cuidados e tratamento específicos. Quando os cuidados e o tratamento são prestados, é de esp erar uma melhoria ou recuperação, permitindo às pessoas regressarem à comunidade e retomarem vidas normais. Infelizmente, os preconceitos impedem que as pessoas, uma vez recuperadas ou tratadas,consigam dar os passos para reingressar na vida familiar e social, com total plenitude.”
Segundo Figueira, “a ‘Carteira do Esquizofrênico’, assim denominada pela denúncia do paciente discriminado, também contraria a Declaração de Direitos do Deficiente Mental, da Organização das Nações Unidas e a própria Constituição Federal, merecendo ser repudiada”.
Abaixo, a íntegra da carta do paciente encaminhada à Comissão de Saúde e Higiene da Assembleia Legislativa:
**

*A Esquizofrenia e a Estrela de David*


“Em 1938, a chamada “Noite dos Cristais” marca o início da perseguição aos judeus na Alemanha e na Áustria. Posteriormente, os judeus são confinados em bairros determinados e obrigados a andar com a estrela de David estampada em papelete amarelo e pregada junto a roupa, de forma que fossem facilmente
identificados.
“Esse segregacionismo também é estendido aos ciganos, comunistas, homossexuais e, inclusive, aos doentes mentais. A Alemanha de Hitler exterminou e perseguiu milhões de pessoas, constituindo-se como uma das mais horrendas e vergonhosas páginas da história do Homem. Infelizmente o preconceito e perseguição às minorias chegam até os nossos dias, seja pelo viés das piadas e comentários de gosto duvidoso, seja por grupos organizados como os ‘skinheads’.
“Em 20 de abril de 2010, ao retirar o medicamento do qual faço uso na Farmácia de Medicamentos Especializados, em Santos, gerenciada agora pela Cruzada Bandeirante São Camilo, sob os auspícios da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, recebo uma carteira amarela com enormes carimbos estampados: ESQUIZOFRENIA.
“Confesso que num primeiro momento a única coisa em que pensei foi que havia em minha testa uma tatuagem, um carimbo com meu diagnóstico estampado para que todos pudessem apontar e dizer: ‘Lá vai o esquizofrênico’. Teria sido apenas um ‘ato falho’ da burocracia? Quem sabe uma ação inconsciente do recém-admitido gestor da farmácia? Ou seria, então, uma política pensada e planejada para expor e reafirmar o estigma das pessoas?
“A Lei 10.216 (chamada Lei Paulo Delgado), assim como outras leis específicas da legislação médica, é ferida frontalmente na medida em que o sigilo do diagnóstico estabelecido em prontuário médico é, escancaradamente e em letras garrafais, divulgado. A Carteira do Esquizofrênico, nesse sentido, é uma afronta ao bom senso. Mais do que isso, é ilegal, dissemina o preconceito, ofende a ética e, sobretudo, causa revolta.
“Todo o trabalho, treinamento, aprimoramen to, debates, documentos, fóruns, leis promulgadas, etc., é jogado por terra por atos que denotam a verdadeira face de governantes descomprometidos com os avanços conquistados pelas lutas dos doentes mentais. A Carteira do Esquizofrênico mostra a verdade, ela rotula nossas misérias para calar a nossa voz.
Um governo que se nega a convocar a Conferência Estadual de Saúde Mental; que pouca importância dá à Saúde Mental de nosso município; que sucateou os serviços do Hospital Guilherme Álvaro para entregá-lo à iniciativa privada; que sucateou a antiga Farmácia de Medicamentos de Alto Custo para mais uma vez entregar um serviço público à iniciativa privada e que, em conjunto com a Prefeitura Municipal de Santos, vem precarizando os NAPS, só poderia mesmo mostrar todo o seu pensamento em relação a nós, usuários dos serviços, num ‘ato falho’: a ‘Carteira de Louco’.
“A burocracia burra e mal intencionada é um dos braç os desta máquina de estigmatização. Primeiros os loucos, depois os pobres, depois os negros, e assim por diante, até que todas as vozes contrárias sejam suprimidas.
“O passo seguinte ao de retirar a nossa voz é nos colocar novamente nos manicômios (ou nos trinta novíssimos leitos psiquiátricos recém-abertos pela Cruzada Bandeirante São Camilo) e, retrocedendo ainda mais, aplicar-nos castigos como o eletrochoque, a solitária e outros métodos sádicos, que brotam na mente dos que administram as instituições desse caráter, chegando, por fim, à tão sonhada volta da lobotomia, em que o Estado poderia estar livre de despesas e questionamentos.
“Não, não tenho vergonha de ser esquizofrênico. Mas também não posso dizer que é fácil lidar com o preconceito. Por todos os lugares onde tento fazer valer a minha cidadania, logo vem a taxação: é louco! Também não é raiva o que sinto, nem indignação. É um sentimento de impotência frente a esta máquina tão poderosa que fatalmente irá desconsiderar meu desabafo com apenas um argumento: “é louco”. E isto é o que faz minhas pernas e meu corpo fraquejarem, mas parafraseando Cazuza no final de sua vida, morro atirando.”

Ainda teremos que lutar muito para vencer os preconceitos e fazer valer as leis já promulgadas....aí em São Paulo, aqui em Salinas e em todo Brasil!!!

6 de jun. de 2010

TENDÊNCIAS/DEBATES: O estandarte 18 de maio

Apesar dos avanços, ainda há muito em que trabalhar para que alcancemos a plena proteção da infância e adolescência no país
 
NO DIA 18 de maio de 1973, no Estado do Espírito Santo, uma menina de oito anos chamada Araceli foi raptada, drogada, violentada, morta e carbonizada.Seus responsáveis nunca foram punidos.Esse crime, que chocou todo o país, foi escolhido no ano 2000 para ser o marco do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes no Brasil, instituído pela lei nº 9.970/00.
Nesses dez anos, iniciativas e estudos têm permitido mapear, ainda que de forma incipiente, onde e como essa violência ocorre.
Alguns dos avanços mais significativos foram a adoção de um Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infantojuvenil e a transformação em política pública do Ligue 100, um disque-denúncia nacional que, administrado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, recebe, encaminha e monitora denúncias de forma anônima e gratuita.
Desde 2003, quando o Ligue 100 foi adotado como política pública, até o ano passado, o número anual de denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes cresceu quase sete vezes, indo de cerca de 4.000 para mais de 29 mil.
Mas o que poderia ser visto como um aumento no número de casos pode indicar que as pessoas estão denunciando mais e rompendo a cultura do silêncio que permeia esse universo, o que é um fato positivo.
O número de programas especializados de atendimento a crianças e adolescentes tem aumentado, com destaque para a implantação dos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas).
Também houve ganhos significativos em termos de legislação, como, por exemplo, a lei nº 11.829/2008, que alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), conferindo mais rigidez às punições contra o abuso
on-line e a pornografia infantojuvenil.
O setor privado vem assumindo a sua parcela de responsabilidade sobre a causa, a cobertura jornalística do fenômeno está aos poucos se qualificando e, de modo geral, podemos dizer que a sociedade está mais receptiva ao diálogo sobre a importância do respeito ao direto de crianças e adolescentes a um desenvolvimento pleno e saudável.
Entretanto, a proteção a esses direitos fundamentais só pode ser concretizada de forma eficaz por meio de ações integradas entre governos, empresas, organizações sociais e sociedade em geral.
O abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes são fenômenos multicausais e, ao contrário do que muitos ainda podem pensar, ocorrem de norte a sul do país e de maneira transversal em todas as camadas sociais. Outro ponto a ser considerado é que, embora os estímulos ao sexo sejam encontrados em várias interfaces, o diálogo e a educação sexual continuam considerados tabus.
Conversar sobre sexo com os filhos não é estimulá-los. Faz parte do nosso papel de proteção instruir crianças e adolescentes sobre sexualidade saudável, sobre prevenção. O que vemos é que, apesar do entendimento legal sobre os direitos infantojuvenis, retirar de seus ombros a culpa por um abuso sexual, por exemplo, persiste ainda como um grande desafio.
Na outra ponta, é preciso garantir a responsabilização dos agressores e a proteção integral de crianças e adolescentes vítimas de violência, inclusive durante os processos de investigação criminal. Assim, fica claro que, apesa  de avanços, ainda há muito em que trabalhar para a plena proteção da infância e da adolescência no país.
Sobretudo nos próximos anos, quando sediará a Copa do Mundo e a Olimpíada, o Brasil será chamado a reforçar suas redes de proteção, para prevenir a exploração sexual ligada ao turismo.
Precisamos promover melhores condições de vida para meninos e meninas em situação de vulnerabilidade, formar continuamente os profissionais que lidam com crianças e adolescentes em seu dia a dia, fomentar e qualificar o debate sobre a causa e intensificar campanhas que estimulem adultos a adotar postura mais protetiva, em grande ação de prevenção.
Somente mudando olhares e atitudes frente a problemas que antes pareciam distantes de nós é que poderemos caminhar para uma sociedade mais justa e harmônica, na qual os direitos humanos, especialmente os dos pequenos cidadãos em desenvolvimento, sejam devidamente assegurados.
Dia 18 de maio é o grande estandarte dessa luta!

*ANA MARIA DRUMMOND* é diretora-executiva da Childhood Brasil, organização que trabalha pela proteção da infância contra o abuso e a exploração sexual.

TENDÊNCIAS/DEBATES: A luta antimanicomial e a psiquiatria

 Nenhum sistema de saúde mental pode funcionar sem que haja a disponibilidade de leitos suficientes para acolher o paciente em crise
 
18 de maio  É O DIA reservado para comemorar a luta antimanicomial. Dia de levantar a questão: quais os princípios que devem nortear as políticas de saúde mental?
Os serviços de assistência à saúde mental em países em desenvolvimento não estão conseguindo atender às necessidades de tratamento dos pacientes, face à alta morbidade psiquiátrica na população.
Um princípio fundamental da disseminação da assistência mental à comunidade é a noção da igualdade de acesso das pessoas aos serviços em seu bairro ou região de moradia.
Outro princípio fundamental é a garantia dos direitos de autodeterminação e autonomia dos indivíduos com transtornos mentais como cidadãos. Esses princípios foram ratificados pela Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotados em 1991.
São textos que estabelecem três pontos importantes, em se tratando da pessoa com transtorno mental: o direito de ser tratada sem discriminação; o direito à presunção de capacidade legal, a menos que a incapacitação fique claramente demonstrada; e a necessidade de envolvimento dos usuários dos serviços e seus familiares no desenvolvimento de políticas que afetam diretamente suas vidas.
As mudanças nas políticas de saúde mental podem ser divididas em três fases:
o estabelecimento dos asilos psiquiátricos, a partir de 1880 até 1955; o declínio do sistema de institucionalização e isolamento, pós-Segunda Guerra; e a reforma dos serviços de saúde mental de acordo com abordagem baseada em evidências, no equilíbrio e na integração de serviços comunitários e hospitalares.
A integração entre comunidade e serviços hospitalares é reconhecida como um "modelo de assistência equilibrado", no qual a maioria dos serviços funciona na comunidade, em centros próximos à população atendida, onde a internação hospitalar é reduzida e, geralmente, efetivada nas enfermarias psiquiátricas dos hospitais gerais.
Os países em desenvolvimento devem estruturar cinco categorias de recursos para organizar o desenvolvimento dos serviços: clínicas ambulatoriais para atendimento de pacientes; equipes de saúde mental comunitária; serviços de atendimento ao paciente em crise; assistência domiciliar baseada na comunidade; e serviços de encaminhamento para emprego, ocupação e reabilitação. A assistência orientada para a comunidade deve preencher, ainda, os seguintes requisitos: atender às necessidades de saúde pública, com prioridade para o tratamento dos doentes mais graves; desenvolver centros locais e acessíveis; mobilizar a participação dos usuários e seus familiares nas políticas de planejamento; e provisionamento dos serviços de saúde mental.
A Associação Mundial de Psiquiatria nomeou uma força-tarefa para produzir diretrizes sobre as etapas, os obstáculos e os erros a serem evitados na implementação de um sistema de saúde mental comunitário.
O conteúdo desse editorial estará no próximo número da "Revista Brasileira de Psiquiatria" e o relatório completo será divulgado na edição de junho do "World Psychiatry". O relatório levantou vários erros-chave. Primeiramente, não há planejamento de saúde mental sem a participação de psiquiatras e usuários. Em segundo lugar, o planejamento deve ser acompanhado por sucessão racional de eventos, de modo a evitar o fechamento de um hospital psiquiátrico antes que o serviço comunitário de assistência esteja solidamente estabelecido na mesma área.
Nenhum sistema de saúde mental pode funcionar sem a disponibilidade de leitos suficientes para acolher o paciente em crise. Outro erro comum é associar a reforma a um interesse ou grupo político particular, o que pode fazer com que qualquer mudança de governo comprometa as ações tomadas por predecessores.
Concluindo, os princípios fundamentais de orientação das políticas de saúde mental nos países em desenvolvimento preveem que estas devem se basear nas necessidades de saúde pública, levar em consideração a proteção dos direitos humanos e serem projetadas levando em conta sistemas de saúde mental baseados em evidência e custo-efetividade.
É o momento, portanto, de se buscar um consenso para a defesa da melhoria de serviços de saúde mental de qualidade, capazes de atender milhões de pessoas sem recursos e completamente desassistidas, nos países em desenvolvimento.
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*JAIR MARI* é professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo).
*GRAHAM THORNICROFT* é professor do Instituto de Psiquiatria do King's College, em Londres.

6 de set. de 2009

Reforma Psiquiátrica


DJAIR MORA AQUI


CONTARDO CALLIGARIS
Folha de São Paulo, quinta-feira, 08 de julho de 2004.
Caderno Ilustrada


Há quase duas décadas, Djair Carlos, 52, faz xixi no mesmo poste. É seu
jeito de dizer que ele não sai de uma quadra específica do Itaim. Nos
últimos anos, escolheu uma esquina: Joaquim Floriano com Clodomiro Amazonas.

Na calçada da Carglass, uma moderna loja de vidros para carros, está sua
casa. Até pouco tempo atrás, era um carrinho de dois andares, sem rodas,
para que não fosse roubado durante as breves ausências do dono. Mas o
carrinho foi retirado como lixo. Hoje, a moradia de Djair é mais modesta:
uma caixa e um sofá velho, aquisição recente, que, segundo ele, não durará.

Djair vive com dois cachorros. A cadela (linda mistura de labrador com
vira-lata) dá cria com regularidade. Da última vez, nasceram 12
cachorrinhos, que foram distribuídos e adotados graças ao trabalho de Suely
Maciel, psicóloga do Centro de Controle de Zoonoses da prefeitura (o centro
tem a tarefa de tornar possível e salubre a convivência urbana com os
animais).

Conversei com alguns vizinhos de Djair, que na esquina é conhecido como o
Barba. Vanessa e a dona Bete, do bar Estação, e Célia, da lanchonete Samaro,
me contaram que o Barba cuida dos cachorros como se fossem gente. Se ele
recebe uma comida (da igreja, do pessoal da loja São Benedito ou de outros),
é primeiro para seus protegidos. O sofá, atualmente, é para eles, enquanto
ele dorme sentado. O próprio Djair disse que os cachorros são sua vida.

De onde vem o Barba, ninguém sabe direito. Dizem que tinha filhos e tal,
mas, um dia, aconteceu algo terrível, que (comentou dona Bete) "deve ter
dividido sua cabeça". Mas não se sabe o quê. Parece que ele passou um tempo
preso. Quatro anos atrás, apareceu um irmão do Barba que tentou convencê-lo
a visitar a mãe doente. Djair respondeu que nunca voltaria a se relacionar
com a família.

Todos os vizinhos concordam: o Barba não bebe e não é violento nem
ameaçador. Alguns se incomodam com o cheiro e com a presença de Djair, das
suas tralhas e dos seus cachorros. Outros encaram o Barba com simpatia.
Lembram que as coisas estavam melhor quando, no lugar da Carglass, havia uma
agência do HSBC: o Barba podia usar a água do estacionamento para se lavar e
passar a mangueira ao redor do carrinho.

Duas vezes por semana, Djair recebe a visita de Suely e de uma psicóloga do
Centro de Atenção Psicossocial do Itaim. Os Caps cuidam da saúde mental dos
cidadãos onde quer que estejam; se possível, evitam a segregação, que muitas
vezes tem mais a ver com a manutenção da ordem do que com o projeto de curar
loucos e estranhos.

Aliás, eis um exemplo: algumas semanas atrás, a Subprefeitura de Pinheiros
pediu que o Caps do Itaim fizesse o necessário para que Djair fosse tirado
da rua. A razão era um boato de que alguns infelizes estariam planejando
colocar fogo no carrinho do Barba e, quem sabe, nele mesmo. Como não seria
possível protegê-lo, melhor interná-lo. Pois é, proponho que os paulistas
suscetíveis de serem vítimas de seqüestro relâmpago sejam todos internados
imediatamente.

Um psiquiatra do Caps do Itaim, Carlos Assédio, foi entrevistar o Barba.
Tudo parecia pronto para a internação; só faltava sua canetada. Carlos achou
que Djair era, sim, psicótico, mas nem por isso precisava ser internado. Ou
seja, preferiu praticar a medicina e deixar a manutenção da ordem para a
polícia.

No sábado passado, conversei bastante com Djair. Escutei uma extraordinária
aceleração de histórias que envolviam personagens (imagino) do passado do
Barba ou do bairro: histórias pornográficas, às vezes violentas e sempre
desconexas. Djair fala na língua distorcida de um Guimarães Rosa dos pobres
e derrelitos e com dez vezes a virulência erótica do João Ubaldo Ribeiro da
"Casa dos Budas Ditosos".

Ao lado de famílias lambendo sorvetes, de casais passeando de mãos dadas e
de grupos de amigos saboreando uma cerveja, naquela tarde de sol, Djair
parecia articular a trama turva e incompreensível de sangue, sexo e grana
que talvez esteja sempre reprimida atrás de nossas sorridentes convivências
cotidianas. Era como se sua vida na calçada fosse a condição e o preço pago
para saber o que escoa nas sarjetas.

Mas não é o caso de se apavorar. É só pedir, e o Barba pára seu monólogo.

Remédios apropriados conteriam um pouco a confusão do pensamento de Djair.
Mas como garantir uma medicação correta nessas condições?

Se fosse internado, Djair, separado de sua esquina e de seus companheiros
(os cachorros), seria provavelmente um espectro errando pelo pátio de um
hospício.

Seria bom se, pelas esquinas de nossas cidades, todos os Barbas pudessem
viver tranqüilos conosco e com as tragédias que agitam suas mentes (e que
são muito parecidas com as nossas). Mas entendo os argumentos de quem não
agüenta a parada.

Freqüentemente me perguntam o que penso da reforma psiquiátrica. Pois bem, a
história de Djair é minha melhor (e perplexa) resposta.